terça-feira, 11 de outubro de 2022

BRASIL-100 ANOS DE NEGRITUDE OLÍMPICA


 



LIGA CANELA PRETA


                                    LIGA  CANELA PRETA

                De uma forma jocosa e pejorativa a Liga Nacional de Football Porto Alegrense, fundada em Porto Alegre no final do ano de 1910 para congregar clubes de futebol formados, na sua maioria por atletas negros, ficou conhecida como Liga da Canela Preta, ou ainda Liga dos Canelas Pretas, ou Canela Preta, simplesmente.

              O apelido marcou a associação alternativa fundada por clubes negros de Porto Alegre no início do século XX, quando suas participações entre os campeonatos de elite eram vetadas. O escritor e historiador José Antônio dos Santos, autor do livro Liga da Canela Preta: a história do negro no futebol atenta para o fato de que: “Esse nome pejorativo nunca constou nos jornais”, “Possivelmente, essa memória foi criada nas décadas seguintes a partir de relatos daqueles que conheceram clubes e associações envolvidas”. 

               E se manteve ao longo do tempo. Cesar Caramês, pesquisador do Museu do Internacional Clube, que teria o primeiro registro de um negro em sua equipe, o zagueiro Dirceu Alves no ano de 1913, acrescenta que o nome original da Liga tinha como objetivo se contrapor aos times de elite formados por imigrantes: “Ao reivindicar a expressão ‘nacional’, a comunidade negra reivindicava também uma origem para sua identidade”. “A existência da Liga rompeu as barreiras existentes à medida que o desporto deixou de lado o caráter amador e de lazer, dando lugar à crescente profissionalização”.

               Embora o futebol em Porto Alegre tenha se tornado profissional no ano de 1940, o esporte passou a ser visto sob a ótica financeira quando o preconceito deu lugar ao desejo dos clubes em ter em seu plantel os melhores atletas. Assim o talento rompia as barreiras raciais, ainda que timidamente.

              Este aspecto financeiro proporcionou aos jogadores negros o acesso às equipes com maior poder financeiro, e isso provocou o esvaziamento dos torneios de Liga Nacional, “Não foi uma extinção, e sim um processo complexo de modificação da estrutura e do crescimento do  esporte que passou a ser dominado pela mídia e pelos dirigentes das elites”, explica o pesquisador Santos.  

             Conforme garante César Caramês, o Internacional foi uma entre várias equipes que abriram portas para um processo “irreversível” de inclusão. O registro é posterior ao do Grêmio, que teve em 1912, o jogador Antunes como primeiro negro defendendo suas cores. 

             No entanto, o clube colorado passou a se identificar mais com a pauta de combate ao racismo a partir da formação da equipe conhecida como “Rolo Compressor”, que faturou oito campeonatos gaúchos em nove anos entre 1940 e 1948 com um time onde pelo menos a metade dos jogadores era negra. Tesourinha, negro, chegou ao Inter em 1939 e foi o principal expoente do lendário Rolo Compressor, a ponto de chegar à seleção brasileira mesmo em tempos de predomínio paulista e carioca”, conta Caramês. 

          Tesourinha também jogou pelo Grêmio, em 1952, após passagem pelo Vasco. O sucesso do Internacional na década de 1940 rendeu provocações racistas por parte dos rivais, conforme conta o pesquisador do Museu: “Muitos relatos dão conta que chamavam o Inter de ‘macaco’ e ‘clube dos negrinhos’, já naquela época”.




 

         
BRANQUEAMENTO PRESIDENCIAL

 Tivessem, Pelé, Didi, Coutinho, Djalma Santos, Dida, Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, e tantos outros heróis afrodescendentes do futebol brasileiro, que tantas glórias nos trouxeram, despontados para o futebol nos anos 1910/1920, certamente não teriam tido a oportunidade de encantar o mundo envergando a camisa da nossa seleção, em que pese serem eles, detentores de inquestionável e reconhecido talento. Contra fatos comprovados não existem argumentos, e esse verdadeiro e vergonhoso linchamento racial foi protagonizado por ninguém menos que o Presidente da República Epitácio Pessoa.  

Em 1921, o referido presidente com a justificativa de preservar a reputação do Brasil no exterior convocou uma reunião com a diretoria da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atualmente Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e “recomendou” que a seleção brasileira fosse representada apenas por jogadores brancos. “A gente pode não achar documentos, mas o maior jogador brasileiro na época era mestiço e não foi convocado. Então aquilo aconteceu”, diz Marcelo Carvalho diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.   

O Jornal O País assim se manifestou a respeito: “Os senhores absolutos do esporte, num golpe reprovável, sem base, antiesportivo, excluem do quadro nacional os negros e mulatos”.

Lima Barreto, escritor negro brasileiro registrou o ocorrido em uma crônica: “O football é eminentemente um fator de dissensão. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização de turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã aludiu ao caso. Ei-lo: ‘O Sacro Colégio de Football (a CBD) reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levada a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro — homens de cor, enfim. (…) O conchavo não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República’. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano

GALEANO Eduardo escritor e jornalista uruguaio, décadas mais tarde também citaria o episódio em seu livro Futebol, ao Sol e Sombra: “Em 1921, a Copa América ia ser disputada em Buenos Aires”. O Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa (…) ordenou que não se enviasse nenhum jogador de pele morena, por razões de prestígio pátrio”

Como é sabido a “seleção brancura”  não saiu-se bem no torneio e mais uma vez amargou uma derrota. No torneio Sul Americano pela segunda vez sediado no Brasil,  os atletas negros voltaram à seleção, inclusive Arthur Friedenreich, que logo no primeiro jogo se machucou, e a nossa seleção brasileira sagrou-se bicampeã. Marcelo Carvalho, no entanto, alerta que: 

“A entrada dos negros no futebol se dá puramente pelas capacidades técnicas e possibilidades de vitória que esses jogadores proporcionavam. É muito pouco ligada ao não racismo, à virada de chave contra o racismo”

SINTONIA CENTENÁRIA

SINTONIA CENTENÁRIA


          Alfredo Gomes estava inserido na contemporaneidade de um conturbado contexto, onde a diferença racial era marcante para um atleta negro neto de escravizados. Enfrentou preconceitos que afetaram todas as suas atividades e os seus relacionamentos, e precisou superar adversidades e vencer desafios para atingir os seus objetivos.

 A paixão de Alfredo Gomes pelo atletismo é incontestável, tanto que ele se dedicava aos treinos após um árduo dia de trabalho na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), onde era inspetor de redes, e também participava ativamente do sindicato da categoria como um associado atuante. Alfredo sempre competiu amadoristicamente ainda que em corridas oficiais e internacionais.

O seu otimismo, objetivo, entusiasmo, e persistência em mudar o panorama adverso causado pelo preconceito racial muito arraigado à época, e ainda presente nos dias atuais, é sem sombra de dúvida, um impacto sócio cultural que deve e merece ser trazido à tona, em tempos de manifestações e reivindicações de reconhecimento pela luta das igualdades sociais e raciais em um país onde ironicamente, apesar de mais da metade da população se declarar afrodescendente, a raça negra faz parte da minoria neste complexo cenário.

No livro, DE PAULA AC Alfredo Gomes Vida, Vitórias, e Conquistas São Paulo, Ixtlan 2018 , a história deste herói foi contada em uma narrativa poética evidenciando sua vida pessoal e preservando a essência dos acontecimentos, refletindo o dia a dia de um homem negro de família humilde que superou crises existenciais, e traçou a sua trajetória vitoriosa para fugir do clichê característico de um ser humano conformista. 

Nesta nova publicação, o autor procura atender a demanda da sociedade por expressões culturais que agreguem valores de representatividade inseridos no contexto do panorama atual, no entanto, os conflitos sócios raciais, que eventualmente emergirem dessas páginas não serão evidenciados de forma revanchista, deixando claro que é possível exigir, reivindicar, lutar e conquistar direitos sem demonstrações radicais da intolerância reinante, que o império da massa dominante batizou de preconceito racial reverso. 

Quem nasceu pobre, negro, nordestino, obeso, com alguma necessidade especial, ou tem uma opção sexual fora dos conceitos padronizados reinantes, sabe muito bem em que ritmo a banda toca, lembrando ainda, que as garras afiadas da desigualdade racial atingem também as raias da diversidade, resvalando ainda pelo preconceito de gênero.  

Resolvi escrever Brasil - 100 anos de Negritude Olímpica” (A trajetória de Alfredo Gomes), para evidenciar e prestar meu tributo às suas conquistas, e também, para homenagear não apenas meu avô pelo seu pioneirismo olímpico, que completará cem anos nos próximos Jogos Olímpicos de Paris 2024, mas também, a todos os atletas homens e mulheres, que neste período centenário e em diversas modalidades esportivas, apesar dos constantes percalços e das pedras do caminho, encheram o peito de sonhos, esperança, alegrias e medalhas.