segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

 

O FUNDO FALSO DA ESPERANÇA  AC de Paula

 

A vida é um baú. Não desses de novela, com fechadura dourada e herança moral. É um baú velho, empenado, achado no fundo do porão da República, rangendo quando aberto, exalando cheiro de naftalina, mofo e promessa não cumprida. Dentro dele, nada está organizado. As ironias vêm misturadas com certidões falsas, os sonhos dividem espaço com recibos frios, e a esperança aparece sempre dobrada, para caber em qualquer discurso. Há maracutaias embrulhadas em papel de presente, trambiques com laço de fita e o famoso jeitinho brasileiro etiquetado como “solução criativa”.

 O cidadão comum abre o baú todos os dias. Abre cedo, antes do café esfriar. Procura dignidade, mas encontra boleto. Procura justiça, mas acha despacho adiado. Procura futuro e esbarra num carimbo: “volte amanhã”. Ainda assim, insiste. Brasileiro não desiste, contorna. Se a porta não abre, força a dobradiça; se a lei não encaixa, improvisa uma vírgula. Há quem diga que o baú é democrático. Mentira elegante. Ele se abre mais fácil para alguns. Para outros, emperra. Tem senha, mas ninguém sabe qual. Tem fundo falso, onde se escondem privilégios, e um compartimento secreto reservado aos que juram que nunca mexeram em nada, embora estejam sempre com as mãos sujas de pó antigo. 

O mais curioso é que o baú nunca está vazio. Mesmo quando roubado, sobra discurso. Mesmo quando saqueado, sobra culpa — geralmente transferida. A tampa fecha com força, mas a verdade insiste em ficar para fora, como meia desparelhada que ninguém quer assumir. No fundo, o baú não guarda surpresas. Guarda repetições. O novo é só o velho maquiado, com terno slim e vocabulário reciclado. A cada geração, alguém promete limpá-lo, organizá-lo, jogar fora o que não presta. No dia seguinte, acrescenta mais uma tralha e chama de legado.

 E assim seguimos: vivendo, tropeçando, abrindo o baú com a mesma chave torta chamada esperança. Sabendo, no íntimo, que ele não muda. Quem muda é o jeito de fingir surpresa. A vida é um baú. O problema nunca foi o que está dentro. É quem finge não saber quem colocou.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

 

 TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

 

Nada é culpa minha. Nem sua. Nem nossa. A culpa é do sistema —essa entidade invisível, onipresente, que acorda para avisar o galo que é hora de cantar! Que acorda antes do despertador, pauta o telejornal, e dorme depois do noticiário. O sistema controla tudo. O preço do café, o humor da segunda-feira, a queda do cabelo, o Wi-Fi que falha justamente na reunião importante e até o signo errado no mapa astral.

 

Perdeu o emprego? Sistema. Perdeu o amor? Sistema. Perdeu a chave de casa?  Perdeu a vergonha? Sistema com certeza, pois ele anda muito interessado em trancar destinos. Segundo os catedráticos e especialistas de mesa de bar, formados na faculdade das calçadas da vida, o sistema se infiltra no pão francês, manipula algoritmos, se infiltra nas postagens das redes sociais, troca o sal pelo açúcar e ainda chama isso de livre arbítrio. Dizem até que ele mada prender, manda soltar, e pasmem, até faz chover!

 

O sistema é tão poderoso que consegue ser de direita, de esquerda, liberal, conservador e contraditório ao mesmo tempo —uma espécie de camaleão ideológico com pós-graduação em confusão com especialidade em caos. Quando convém, o sistema oprime. Quando aperta, o sistema protege. Quando falha, o sistema terceiriza a culpa. E quando funciona, é mérito individual, claro. Afinal, nem o sistema é de ferro.

 

O sistema é culpado até pela falta de leitura. — “Eu até lia, mas o sistema não deixou.” É responsável pelo atraso do trem do meio-dia, pela dieta que começa amanhã, pela vela da promessa que apagou antes do tempo, e pela consciência tranquila de quem nunca se responsabiliza por coisa alguma.

 

Mas há um detalhe inconveniente que as teorias conspiratórias ignoram: o sistema não se mantém sozinho. Ele precisa de gente. Da gente! Gente que repete, que se acomoda, que aponta o dedo sem sujar as próprias mãos. O sistema adora esse jogo. Enquanto todos brigam entre si, ele troca de nome, muda a fachada e segue operando no horário normal, sob a mesma direção.

 

E assim seguimos, denunciando o sistema em posts inflamados, combatendo o sistema no sofá, entre uma breja e outra, revolucionários de Wi-Fi com bateria carregada e ação em modo avião. Porque enfrentar o sistema de verdade dá trabalho. Exige autocrítica, perda de conforto e a dolorosa constatação de que nem tudo é conspiração —algumas coisas são escolha.

 

No fim, o sistema agradece. Quanto mais ele é culpado por tudo, menos alguém se responsabiliza por algo. E assim, soberano e discreto, o sistema reina —não porque é invencível, mas porque ninguém quer, de fato, tirar a coroa da própria desculpa. Afinal, iam colocar a culpa em quem?

 

 

AC de Paula