Entrevista (maio 2024), para a Revista Ritmo e Melodia, criada pelo jornalista, músico e poeta paraibano
Antonio Carlos da Fonseca Barbosa
Antonio Carlos de Paula (AC de Paula)
01) Ritmo Melodia: Qual a sua data de nascimento e sua cidade
natal?
Eu sou
natural de SP Capital, e nasci, já faz algum tempo, em 09/081947, Leonino o
melhor signo do zodíaco rss!
02) RM: Quais as suas preferências musicais? Quais deixaram
de ter importância?
Na
qualidade de poeta me atento muito às letras, mas ouço quase todo tipo de
música, e acho que todas, dentro do contexto a que se propõem têm a sua devida
importância.
03) RM: Qual a sua formação acadêmica?
Musicalmente
nenhuma, poeticamente falando, além de formado na universidade da vida, fui um
dos 35 classificados dentre 800 candidatos inscritos para uma vaga no
conceituado e prestigiado Curso Livre de Preparação de Escritores CLIPE POESIA
2020, da Casa das Rosas em São Paulo. Sou pós graduado em direito imobiliário.
04) RM: Como e quando você começou a sua atividade de
letrista em parceria com compositores? Quais são os seus parceiros musicais?
Minha
primeira parceria foi com Voltaire, a música Black Samba que abordava a invasão da música negra norte
americana (Movimento Black) nas escolas de samba do Rio de Janeiro, gravada
pelo cantor Franco, um dos integrantes do grupo Os Brasas na fase
da Jovem Guarda, e que posteriormente se tornaria um Midas como empresário de grandes artistas
(Zézé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, Fabio Junior, Exalta Samba,
Ronnie Von) entre outros, até o lançamento da Banda KLB composta por
seus três filhos. Black Samba foi um sucesso imediato nas rádios e nos
bailes, foi regravada inúmeras vezes e frequentou todas as paradas de sucesso
da época. Ainda hoje a música, que se tornou um clássico do samba-rock é
executada vez ou outra. Com Voltaire escrevi também, Bloco Maravilha,
também gravada pelo Franco e que fez parte da trilha sonora de um
filme estrelado pela cantora Rosemary e John Herbert. Com o Beto
Scala escrevi Canto Livre e Filha da filha da Chiquita Bacana
gravadas por Jair Rodrigues, além de Samba Futebol e Paz, Arrepia my Brother, Sem Censura, Coração Sabe
o que faz, e outras, gravadas pelo próprio Beto Scala. Depois
comecei também a fazer parcerias com diversos cantores e músicos dos festivais.
A grande maioria desconhecidos da mídia e do grande público, dentre eles Zé
Alexanddre que viria a ser o
vencedor do The Voice Mais, e estreamos
a parceria bem sucedida com NÃO SEI FAZER BALADAS COMO AS QUE FEZ
BELCHIOR, premiada em diversos
festivais, fizemos também ULTIMA FANTASIA, e outras. Tenho ainda como
parceiros, Tavinho Limma, Zebeto Corrêa, Diorgem Junior, Manoel Gandra,
Eduardo Santhana, Luiz Bira, Sonekka, Lima Junior, Dimi Zumquê, Anderson
Martins, Luca Bulgarini, Jhu Almeida, D’Carlos, Marcelo Barum, Tadeu Mello,
Marcio Kada, São Beto Ferreira, Marcia Cherubim.
05) RM: Você escolhe sistematicamente quem será o seu
parceiro musical ou deixa acontecer espontaneamente?
Geralmente
acontece de forma espontânea.
06) RM: No processo da parceria na criação da canção, você
envia a letra/poema para o compositor para ele colocar a melodia? Você coloca
letra em melodia que o compositor envia para você?
Às vezes
eu envio a letra, mas também coloco letra em melodia já pronta que me é
enviada.
07) RM: Você permite o compositor alterar a sua letra?
Às vezes
é preciso alterar alguma coisa para melhor sintonia e sonoridade, assim como
também dou minha opinião no que se refere a melodia. Não pode ser nada
hermético, intocável, nem imexível, sempre respeitando a opinião do parceiro, para
que se alcance o resultado desejado.
08) RM: Cite as principais canções que você é o autor da
letra e quem já gravou?
FILHA DA
FILHA DA CHIQUITA BACANA e CANTO LIVRE gravada pelo JAIR RODRIGUES;
SAMBA
FUTEBOL E PAZ, CORAÇÃO SABE O QUE FAZ, ARREPIA MY BROTHER, QUAL É A SUA?
gravadas pelo parceiro BETO SCALA;
BLACK SAMBA,
BLOCO MARAVILHA, e NA CARA DO POVO, gravadas pelo FRANCO;
NÃO SEI
FAZER BALADAS COMO AS QUE FEZ BELCHIOR gravada pelo parceiro ZÉ
ALEXANDDRE.
LOUCA
PAIXÃO gravada pelo parceiro D’CARLOS;
DÊ-ME
UMA CHANCE gravado pela CARMEM JOIA
É COISA
DE PRETO (Marcia Cherubim & AC de Paula) gravação de SELMA FERNANDS
CIRANDA gravada
pelo parceiro TAVINHO LIMMA.
QUANDO
gravada pelo parceiro DIMI ZUMQUÊ
09) RM: Alguns compositores já declaram o fim da canção. Qual
a sua opinião sobre essa afirmação?
Não
concordo, sempre haverá os românticos fazendo canções.
10) RM: Hoje ainda existe espaço e ouvinte para música com
letra que se sustenta como um poema/poesia?
Espaço
existe sim, mas claro que aí não estamos falando da grande mídia e de grandes
plateias. Festivais e eventos intimistas são ainda os mais adequados a este
estilo musical, que tem sim público dedicado.
11) RM: Na Rádio e na TV o autor da música quase não é
informado. Quem canta passa a ser "o autor" da canção. Esse fato te
incomoda?
Sim,
incomoda todo compositor, e não é pelo fator econômico em si, é que todos
querem desfrutar do prestígio do reconhecimento.
12) RM: Você tem músicas que tocaram e tocam em Rádio, TV e
em casa de show? O direito autoral é pago corretamente?
O
direito autoral sempre foi complicado, tive sim alguns problemas de
recebimento, sanados depois de reclamações, atualmente, como não tenho mais
músicas sendo executadas, a não ser eventualmente, não tenho tido motivos para
reclamar rs.
13) RM: É possível sobreviver exclusivamente de direito
autoral de suas músicas?
No meu
caso específico não, apesar de ter recebido razoavelmente bem quando as músicas
estavam sendo executadas. Na verdade, a grande maioria dos compositores vive vendo o almoço (quando tem) para comprar
a janta.
14) RM: Depois que você teve letras de
canções que se tornaram conhecidas, aumentou a procura de compositores em busca
de parceria?
Sim, é
uma coisa quase que automática, inclusive no cenário dos festivais onde hoje
sou reconhecido e considerado como poeta e letrista de MPB aconteceu bastante.
E isso é gratificante. Eu costumo dizer que o poeta é o primo pobre do
escritor, e o letrista de música popular, é o primo pobre do poeta.
15) RM: O que lhe deixa mais feliz e mais triste na função de
letrista?
Feliz é
conseguir terminar uma canção. Triste seria não conseguir, mas graças a Deus
isso nunca aconteceu.
16) RM: Quais as estratégias de planejamento da sua carreira
profissional?
Atualmente
me dedico mais à literatura, desde sempre o meio da música foi assim, você tem
que estar ativamente no cenário junto com autores, músicos, produtores,
cantores. Quem não aparece não é visto, e dificilmente você vai conseguir
gravar apenas enviando a música para o email do cantor ou do produtor, mesmo
que já tenha feito sucesso. A concorrência é grande, e hoje estourar uma música
significa entrar numa grana preta, e por isso há muita coisa envolvida.
17) RM: Quais as ações empreendedoras que você pratica para
desenvolver a sua carreira?
Continuo
sim escrevendo e compondo, publicando no meu site, no meu canal do YouTube,
divulgando enfim. E fazendo palestras sobre os meus livros, sobre poesia,
música e literatura.
18) RM: O que a internet ajuda e prejudica no desenvolvimento
de sua carreira?
A
internet é de grande importância, e hoje qualquer um pode levar seu trabalho ao
conhecimento do público, mas daí a fazer sucesso, viralizar, são outros
quinhentos rs!
19) RM: Como você analisa o cenário musical brasileiro. Em
sua opinião quem foram às revelações musicais nas duas últimas décadas e quem
permaneceu com obras consistentes e quem regrediu?
Surgiram
sim novos cantores, cantoras, compositores, compositoras e novas canções, mas
de uma forma geral, uma boa parte disso tudo é, digamos, um tanto quanto
volátil. Não permanecem, daqui a pouco
tempo a onda é outra, o que é sucesso agora cai logo no esquecimento. Por isso
fico contente, quando ouço no radio música minha feita há mais de quarenta anos
rss. Existem músicas de décadas passadas que tocam até hoje.
20) RM: Você acredita que as suas músicas tocarão nas rádios
sem pagar o jabá?
Esse tal
de jabá é igual a disco voador, ninguém nunca viu, mas todo mundo diz que
existe! Talvez seja por isso que só ouvimos nas rádios, aquilo que dizem ser o
gosto dos ouvintes. Então se ele, o tal do jabá, existe mesmo, estou fadado ao
esquecimento.
21) RM: O que você diz para alguém que quer trilhar uma
carreira musical?
Nada é
impossível, jamais desista do seu sonho, mas mantenha os pés firmes na terra.
22) RM: Quais os prós e contras de Festival de Música?
Não
existem contras na medida em que qualquer evento que divulgue artistas de MPB
são bem-vindos, na minha humilde
opinião, eles são necessários, mas o que dificulta, no meu caso e no de muitos
outros artistas, é que por ser uma competição o cachê está logicamente atrelado
a premiação, ou seja meia dúzia talvez
saia com algum resultado financeiro, os demais classificados têm que se
contentar com a ajuda de custo, (quando tem), que não cobre as despesas de
locomoção, estadia ,alimentação e músicos acompanhantes.
23) RM: Hoje os Festivais de Música ainda tem a importância
de revelar talentos?
Sim, mas
há quem diga que festivais, principalmente se patrocinados pela grande mídia,
revelam artistas que sim farão parte da grade musical da emissora. Quanto aos
festivais dos quais participei bastante, que ocorrem pelo Brasil afora,
dificilmente isso acontece, mas por eles passaram nomes como, Chico Cesar, Zeca
Baleiro, Jorge Vercilo, Zé Alexanddre, entre outros, mas neste cenário existem
muito mais pedras pelo caminho até chegar a grande mídia..
24) RM: Como você analisa a cobertura feita pela mídia da
cena musical brasileira?
Infelizmente
a mídia só existe para o tipo de música que ela, a mídia, diz que é do gosto
popular.
25) RM: Bob Dylan ganhou o prêmio Nobel de Literatura em
outubro de 2016. Será que este fato anima outros letristas a
"sonharem" com prêmios na área de Literatura ou é um fato isolado?
Foi
muito bom isso ter acontecido, por aqui temos o Chico Buarque que na minha
opinião “é de outro planeta”, para
mim existe o Chico e os outros, eu
particularmente gosto muto da poesia ácida/ urbana /contestatória/contundente
do Belchior sou fã de carteirinha. Tem
também o Gil, Caetano, Peninha, Gonzaguinha, Aldir Blanc, Arnaldo Antunes,
entre outros candidatos a uma premiação.
26) RM: Os músicos americanos são conhecidos como grandes
cantores, melodistas e arranjadores. Qual a sua opinião sobre a qualidade deles
como letrista?
Pela
diferença do idioma, o que pode ser poético para um, não o é, para o outro. Até
pelo fato da nossa latinidade intrínseca, que implica em uma maior
passionalidade, somos propensos a ser mais sensíveis. Assim uma letra feita por
eles quando traduzidas literalmente, talvez não nos toque o suficiente. O mesmo
pode ocorrer quando eles traduzem ao pé da letra as nossas canções.
27) RM: Nos apresente os livros que você já lançou?
Segue em
ordem alfabética
A
DAMA DE AZUL, (2019) texto teatral. Uma comédia dramática da qual além de coprodutor, sou
autor do texto e da música tema, Pleno Vazio, interpretada pela atriz e
cantora Paula de Oliveira. Inclusive
estrearemos a quarta temporada em setembro de 2024 no Teatro Moóca no Shopping
Moóca SP.
A
DIVINA PANACEIA - CURA DE TODOS OS
MALES (2020) texto teatral comédia musical, ambientado no universo
do samba, onde sou autor de letra e música das 12 músicas da trilha.
ALFREDO
GOMES Vida Vitórias e Conquistas (2018) onde conto a história de meu avô, pioneiro atleta negro
brasileiro a participar das Olimpíadas (Paris 1924) e vencedor da primeira
corrida de São Silvestre(1925 SP).
BRASIL
100
ANOS
DE NEGRITUDE OLÍMPICA (2024), uma homenagem ao meu avô Alfredo Gomes, e a todos os atletas
afrodescendentes, abordando o preconceito e o racismo nos esportes.
ESTRADAS
& CANÇÕES (2015) Uma homenagem a todos os artistas independentes, em que
abordo a trajetória da minha carreira na música e as minhas andanças pelos
festivais, acompanha o livro um CD com diversos festivaleiros.
OLHOS
DE MENTA (2014) este livro apresenta crônicas, poemas, pensamentos e contos,
tema diversificado.
POLICROMIA (2008) o livro apresenta
poemas de temática variada, o nome do livro é o mesmo de um poema com o qual
ganhei um concurso na faculdade em 1981.
VENDER
VENCER Crônicas & Anotações,(2009) livro
calcado na minha experiência como vendedor de livros jurídicos e de imóveis.
VÔ
SEM PARAFUSO (2010) livro infantil onde os protagonistas são os pets.
Participei
ainda de várias antologias poéticas e também organizei e produzi o livro SENTIMENTOS COLETIVOS
(2021) com diversos poetas.
28)
RM: Qual a sua opinião sobre a função positiva do crítico musical?
Sempre é
bom ouvir algo que nos faça saber que estamos no caminho certo.
29) RM: Qual sua opinião sobre os livros ou sobre a análise
do Luiz Tatit sobre a função da letra na música?
Concordo
quando Tatit diz que na atualidade tem muita mais evidencia a canção do que a
literatura. A letra por mais simples e singela que seja, acaba tendo uma
conotação diferente e mais abrangente quando musicada. Todo mundo ouve música,
mas nem todo mundo se dedica a ler um livro. Até mesmo os saraus literários se
valem da sonoridade musical para emitir suas mensagens.
30) RM: Nietzsche comenta que a melodia(música) sem letra
perturba a alma. O que você acha dessa afirmação?
Aqui é preciso lembrar que ele também frequentemente
contrasta a música com a palavra, e sugere que a música pode alcançar uma
profundidade emocional que a linguagem falada muitas vezes não consegue. O
mesmo pensamento de Tatit e o meu.
31) RM: No tempo da Ditadura Militar no Brasil as letras que
tinham engajamento político fizeram sucesso. Qual a importância de letras que
não tratem só do tema Amor?
O
letrista é um cronista que faz versos que às vezes se tornam canções, claro que por tratar de
assuntos que afetam sobremaneira o
indivíduo, o ouvinte tende a se identificar com o tema evidenciado, há uma
sintonia direta, isso por si só, explica o sucesso de canções engajadas
politicamente. Em 1981 na música NA CARA DO POVO, antes portanto da
abertura política eu dizia “quero um panorama novo, quero mais é alegria
na cara do povo!” Não tinha como a música não cair no gosto
popular, por motivos óbvios.
32) RM: Qual a sua opinião sobre "as letras pra
acasalamento" que tocam no rádio (FUNK, Sertanejo, Pagode, Forró, etc)?
Não
tenho nada contra, apenas não se encaixam no tipo de som que eu escuto, mas
enfim, há quem goste, e muito pelo jeito. Mas a meu ver são todas de sucesso
passageiro.
33) RM: Renato Russo comentou que as letras que falam de amor
sempre estarão na moda. Qual sua opinião a respeito dessa afirmação?
Escrevo
para o jornal diário O Pergaminho MG e acabei de enviar um texto para
publicação, onde, parodiando o poema “Autopsicografia”
de Fernando Pessoa, eu afirmo que
se uma canção de amor é um poema musicado, por extensão, podemos dizer que sim,
toda canção de amor é ridícula! O poema de Fernando Pessoa que diz que todas
as cartas de amor são ridículas, muitas vezes interpretado de forma
literal, na verdade, esconde camadas mais profundas de significado. Pessoa, com
seu olhar crítico e irônico, pode parecer desdenhar das cartas de amor,
rotulando-as como ridículas. No entanto, essa “ridícula” não é uma
depreciação, mas um reconhecimento da universalidade do amor. O amor é tão
comum e essencial à experiência humana que se torna um clichê, e é nessa
banalidade que reside sua beleza. O poeta, ao criar, desnuda sua alma, e é
nesse ato de coragem que a canção de amor se eleva acima do ridículo. Pessoa,
através de seus heterônimos, demonstra que a sinceridade do sentimento é o que
confere autenticidade à obra.
34) RM: Você acha que as pessoas no geral estão mais para
aceitar as letras que buscam o entretenimento ou a divagação lírica do que
proporcionar reflexões humanas e sociais profundas?
Eu acho
que a maioria das pessoas quando ouve uma música quer se distrair, se
desconectar do cotidiano ao menos por momentos e não está muito ligada no que a
letra tem a dizer, isso é, quando tem. Ela quer curtir, cantar junto e não está
preocupada em assimilar ou decifrar códigos de mensagens nem fazer análises
filosóficas. Claro que há os que ouvem querendo captar a mensagem, ainda que
subliminar.
35) RM: Quais os seus projetos futuros?
Escrever
sempre, fazer música quando possível for, e continuar no corre para transformar
a história de meu avô materno Alfredo Gomes em um filme cujo roteiro já
escrevi.
36) RM: Quais os seus contatos com o público?
e-mail acdepaula09@gmail.com
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