sexta-feira, 20 de julho de 2018

COMO EU NUNCA SOUBE DISSO?






Este livro é minha forma de homenagear e perpetuar a memoria daquele que religiosamente a cada quinze dias, literalmente atravessava São Paulo, saindo da Vila Jacuí em São Miguel Paulista até a Freguesia do Ó, para almoçar com a filha Irene de Assis, e o neto Carlinhos, ou seja, eu.
       Tatuada na memoria ainda trago a lembrança daquele negro esguio envergando um terno impecável dando “tapinhas” com o bico do sapato sempre brilhando, nos pregadores de roupa no varal de arame fazendo com que eles girassem de uma forma que para mim ainda menino, era mágica.
     Meu avô Alfredo Gomes era um cara de bem com a vida, sempre alegre, gostava de cerveja escura, brincando chamava macarronada de “macarruagem”, contava sorrindo  das vezes em que a serviço da Cia Telefonica inspecionando aparelhos em casas de estrangeiros, respondia em ingles, frances, alemão, ou italiano, comentários que os mesmos faziam entre si no próprio idioma, a respeito  de um  negro elegantemente vestido de terno e gravata verificando a linha telefônica.               
     Ele contava e ria muito da surpresa e do susto que os gringos levavam ao vê-lo responder na lingua deles aos comentários, mas não demonstrava qualquer mágoa à respeito, era de bem com ele mesmo, nos finais de ano sempre me brindava com um Panetonne 900, além é claro, de algum brinquedo. Ainda me lembro dos blocos de madeira do Pequeno Construtor.
     O conhecimento de outras linguas era fruto do estadia forçada na europa após o término das Olimpíadas de Paris em 1924, já que os atletas brasileiros por lá permaneceram por mais ou menos seis meses. O motivo do não retorno dos atletas pátrios ao Brasil, foi o conturbado momento politico vivido no país, dentre eles, a Revolta Paulista que havia eclodido em 05 de Julho de 1924, e que quase causou a destruição da cidade com as tropas legalistas bombardeando o palácio do governo e vilas operárias temendo que a população aderisse aos revoltosos.
       Convivendo com atletas de outros paises tendo forçosamente  vivido na Europa por um breve período, foi que Alfredo Gomes por questão de sobrevivencia aprendeu um pouco de cada idíoma, inclusive o inglês e italiano. Foi  durante os Jogos Olímpicos de Verão na França que Alfredo Gomes conheceu  Heitor (Ettore) Blasi e o convidou a defender as cores do Esperia evidenciando que o clube havia sido fundado por imigrantes italianos. O amigo que já tinha uma irmã morando no Brasil,  não se fez de rogado e um belo dia por aqui desembarcou de mala e cuia, e venceu por duas vezes a corrida de São Silvestre a primeira delas marcando o tempo de 23min no percurso de 6,2 mil metros. Em 1929, Ettore Blasi já defendendo as cores do Palestra Italia, sagrou-se bicampeão da hoje internacional competição.
    A dupla Gomes e Blasi revezou-se na conquista de troféus de outras  importantes competições da época: Volta de São Paulo (Prova Estadinho), Urbino Taccola, Volta de Campinas e Corrida Rústica Fanfulla.
Quando me propus a escrever este livro não imaginei as agradaveis surpresas que me estavam reservadas. Era preciso contextualizar tudo o quanto ocorria no mundo, no Brasil e principalmente em São Paulo na época em que Alfredo Gomes colecionava vitorias , medalhas, e dominava as pistas de corrida.
Embrenhado em pesquisas me deparei com fatos ocorridos em São Paulo sobre os quais nunca me deram noticias nos bancos escolares, nem mesmo nas aulas de história.  Com certeza muitos dos leitores também não devem ter conhecimento sobre a maioria desses acontecimentos.
Portanto não se espantem  quando derem de cara com alguns tópicos  que os farão indagar:  - Como eu nunca soube disso?
        

                                                                                                              AC DE PAULA
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