Este livro é minha forma de homenagear e perpetuar a
memoria daquele que religiosamente a cada quinze dias, literalmente atravessava
São Paulo, saindo da Vila Jacuí em São Miguel Paulista até a Freguesia do Ó,
para almoçar com a filha Irene de Assis, e o neto Carlinhos, ou seja, eu.
Tatuada
na memoria ainda trago a lembrança daquele negro esguio envergando um terno
impecável dando “tapinhas” com o bico do sapato sempre brilhando, nos pregadores
de roupa no varal de arame fazendo com que eles girassem de uma forma que para
mim ainda menino, era mágica.
Meu
avô Alfredo Gomes era um cara de bem com a vida, sempre alegre, gostava de
cerveja escura, brincando chamava macarronada de “macarruagem”, contava
sorrindo das vezes em que a serviço da
Cia Telefonica inspecionando aparelhos em casas de estrangeiros, respondia em
ingles, frances, alemão, ou italiano, comentários que os mesmos faziam entre si
no próprio idioma, a respeito de um negro elegantemente vestido de terno e
gravata verificando a linha telefônica.
Ele contava e ria muito da
surpresa e do susto que os gringos levavam ao vê-lo responder na lingua deles
aos comentários, mas não demonstrava qualquer mágoa à respeito, era de bem com
ele mesmo, nos finais de ano sempre me brindava com um Panetonne 900, além é
claro, de algum brinquedo. Ainda me lembro dos blocos de madeira do Pequeno
Construtor.
O conhecimento de outras linguas era
fruto do estadia forçada na europa após o término das Olimpíadas de Paris em
1924, já que os atletas brasileiros por lá permaneceram por mais ou menos seis
meses. O motivo do não retorno dos atletas pátrios ao Brasil, foi o conturbado
momento politico vivido no país, dentre eles, a Revolta Paulista que havia eclodido
em 05 de Julho de 1924, e que quase causou a destruição da cidade com as tropas
legalistas bombardeando o palácio do governo e vilas operárias temendo que a
população aderisse aos revoltosos.
Convivendo
com atletas de outros paises tendo forçosamente
vivido na Europa por um breve período, foi que Alfredo Gomes por questão
de sobrevivencia aprendeu um pouco de cada idíoma, inclusive o inglês e
italiano. Foi durante os Jogos Olímpicos
de Verão na França que Alfredo Gomes conheceu
Heitor (Ettore) Blasi e o convidou a defender as cores do Esperia
evidenciando que o clube havia sido fundado por imigrantes italianos. O amigo
que já tinha uma irmã morando no Brasil, não se fez de rogado e um belo dia por aqui
desembarcou de mala e cuia, e venceu por duas vezes a corrida de São Silvestre
a primeira delas marcando o tempo de 23min no percurso de 6,2 mil metros. Em
1929, Ettore Blasi já defendendo as cores do Palestra Italia, sagrou-se
bicampeão da hoje internacional competição.
A dupla Gomes e Blasi revezou-se
na conquista de troféus de outras importantes competições da época: Volta de São
Paulo (Prova Estadinho), Urbino Taccola, Volta de Campinas e Corrida Rústica
Fanfulla.
Quando me propus a escrever este
livro não imaginei as agradaveis surpresas que me estavam reservadas. Era
preciso contextualizar tudo o quanto ocorria no mundo, no Brasil e
principalmente em São Paulo na época em que Alfredo Gomes colecionava vitorias
, medalhas, e dominava as pistas de corrida.
Embrenhado em pesquisas me deparei
com fatos ocorridos em São Paulo sobre os quais nunca me deram noticias nos
bancos escolares, nem mesmo nas aulas de história. Com certeza muitos dos leitores também não
devem ter conhecimento sobre a maioria desses acontecimentos.
Portanto não se espantem quando derem de cara com alguns tópicos que os farão indagar: - Como eu nunca soube disso?
AC DE PAULA
#poetaacdepaula
#acdepaulapoeta
