O FUNDO FALSO DA ESPERANÇA AC de Paula
A vida é um baú. Não
desses de novela, com fechadura dourada e herança moral. É um baú velho,
empenado, achado no fundo do porão da República, rangendo quando aberto,
exalando cheiro de naftalina, mofo e promessa não cumprida. Dentro dele, nada
está organizado. As ironias vêm misturadas com certidões falsas, os sonhos
dividem espaço com recibos frios, e a esperança aparece sempre dobrada, para
caber em qualquer discurso. Há maracutaias embrulhadas em papel de presente,
trambiques com laço de fita e o famoso jeitinho brasileiro etiquetado como
“solução criativa”.
O cidadão comum abre o baú todos os dias. Abre
cedo, antes do café esfriar. Procura dignidade, mas encontra boleto. Procura
justiça, mas acha despacho adiado. Procura futuro e esbarra num carimbo: “volte
amanhã”. Ainda assim, insiste. Brasileiro não desiste, contorna. Se a porta não
abre, força a dobradiça; se a lei não encaixa, improvisa uma vírgula. Há quem
diga que o baú é democrático. Mentira elegante. Ele se abre mais fácil para
alguns. Para outros, emperra. Tem senha, mas ninguém sabe qual. Tem fundo
falso, onde se escondem privilégios, e um compartimento secreto reservado aos
que juram que nunca mexeram em nada, embora estejam sempre com as mãos sujas de
pó antigo.
O mais curioso é que o
baú nunca está vazio. Mesmo quando roubado, sobra discurso. Mesmo quando
saqueado, sobra culpa — geralmente transferida. A tampa fecha com força, mas a
verdade insiste em ficar para fora, como meia desparelhada que ninguém quer assumir.
No fundo, o baú não guarda surpresas. Guarda repetições. O novo é só o velho
maquiado, com terno slim e vocabulário reciclado. A cada geração, alguém
promete limpá-lo, organizá-lo, jogar fora o que não presta. No dia seguinte,
acrescenta mais uma tralha e chama de legado.
E assim seguimos: vivendo, tropeçando, abrindo
o baú com a mesma chave torta chamada esperança. Sabendo, no íntimo, que ele
não muda. Quem muda é o jeito de fingir surpresa. A vida é um baú. O problema
nunca foi o que está dentro. É quem finge não saber quem colocou.
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