BRANQUEAMENTO PRESIDENCIAL
Tivessem, Pelé, Didi, Coutinho,
Djalma Santos, Dida, Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, e tantos outros heróis
afrodescendentes do futebol brasileiro, que tantas glórias nos trouxeram,
despontados para o futebol nos anos 1910/1920, certamente não teriam tido a
oportunidade de encantar o mundo envergando a camisa da nossa seleção, em que
pese serem eles, detentores de inquestionável e reconhecido talento. Contra
fatos comprovados não existem argumentos, e esse verdadeiro e vergonhoso
linchamento racial foi protagonizado por ninguém menos que o Presidente da
República Epitácio Pessoa.
Em 1921, o
referido presidente com a justificativa de preservar a reputação do Brasil no
exterior convocou uma reunião com a diretoria da então Confederação Brasileira
de Desportos (CBD), atualmente Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e
“recomendou” que a seleção brasileira fosse representada apenas por jogadores
brancos. “A gente pode não achar
documentos, mas o maior jogador brasileiro na época era mestiço e não foi
convocado. Então aquilo aconteceu”, diz Marcelo Carvalho
diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.
O Jornal O País assim se manifestou a respeito: “Os senhores absolutos do esporte, num golpe
reprovável, sem base, antiesportivo, excluem do quadro nacional os negros e
mulatos”.
Lima Barreto,
escritor negro brasileiro registrou o ocorrido em uma crônica: “O football é eminentemente um fator de
dissensão. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização de
turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá,
em disputa internacional. O Correio da Manhã aludiu ao caso. Ei-lo: ‘O Sacro
Colégio de Football (a CBD) reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam
ser levada a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de
sangue negro — homens de cor, enfim. (…) O conchavo não chegou a um acordo e
consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República’. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e
comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora,
acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco
humano.
GALEANO Eduardo escritor e jornalista uruguaio,
décadas mais tarde também citaria o episódio em seu livro Futebol, ao Sol e
Sombra: “Em 1921, a Copa América ia
ser disputada em Buenos Aires”. O Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa (…)
ordenou que não se enviasse nenhum jogador de pele morena, por razões de
prestígio pátrio”.
Como é sabido a “seleção brancura” não saiu-se bem no torneio e mais uma vez
amargou uma derrota. No torneio Sul Americano pela segunda vez sediado no
Brasil, os atletas negros voltaram à
seleção, inclusive Arthur Friedenreich, que logo no primeiro jogo se machucou,
e a nossa seleção brasileira sagrou-se bicampeã. Marcelo Carvalho, no entanto,
alerta que:
“A
entrada dos negros no futebol se dá puramente pelas capacidades técnicas e
possibilidades de vitória que esses jogadores proporcionavam. É muito pouco
ligada ao não racismo, à virada de chave contra o racismo”.

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