terça-feira, 11 de outubro de 2022


 

         
BRANQUEAMENTO PRESIDENCIAL

 Tivessem, Pelé, Didi, Coutinho, Djalma Santos, Dida, Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, e tantos outros heróis afrodescendentes do futebol brasileiro, que tantas glórias nos trouxeram, despontados para o futebol nos anos 1910/1920, certamente não teriam tido a oportunidade de encantar o mundo envergando a camisa da nossa seleção, em que pese serem eles, detentores de inquestionável e reconhecido talento. Contra fatos comprovados não existem argumentos, e esse verdadeiro e vergonhoso linchamento racial foi protagonizado por ninguém menos que o Presidente da República Epitácio Pessoa.  

Em 1921, o referido presidente com a justificativa de preservar a reputação do Brasil no exterior convocou uma reunião com a diretoria da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), atualmente Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e “recomendou” que a seleção brasileira fosse representada apenas por jogadores brancos. “A gente pode não achar documentos, mas o maior jogador brasileiro na época era mestiço e não foi convocado. Então aquilo aconteceu”, diz Marcelo Carvalho diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.   

O Jornal O País assim se manifestou a respeito: “Os senhores absolutos do esporte, num golpe reprovável, sem base, antiesportivo, excluem do quadro nacional os negros e mulatos”.

Lima Barreto, escritor negro brasileiro registrou o ocorrido em uma crônica: “O football é eminentemente um fator de dissensão. Agora mesmo, ele acaba de dar provas disso com a organização de turmas de jogadores que vão à Argentina atirar bolas com os pés, de cá para lá, em disputa internacional. O Correio da Manhã aludiu ao caso. Ei-lo: ‘O Sacro Colégio de Football (a CBD) reuniu-se em sessão secreta, para decidir se podiam ser levada a Buenos Aires, campeões que tivessem, nas veias, algum bocado de sangue negro — homens de cor, enfim. (…) O conchavo não chegou a um acordo e consultou o papa, no caso, o eminente senhor presidente da República’. Foi sua resolução de que gente tão ordinária e comprometedora não devia figurar nas exportáveis turmas de jogadores; lá fora, acrescentou, não se precisava saber que tínhamos no Brasil semelhante esterco humano

GALEANO Eduardo escritor e jornalista uruguaio, décadas mais tarde também citaria o episódio em seu livro Futebol, ao Sol e Sombra: “Em 1921, a Copa América ia ser disputada em Buenos Aires”. O Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa (…) ordenou que não se enviasse nenhum jogador de pele morena, por razões de prestígio pátrio”

Como é sabido a “seleção brancura”  não saiu-se bem no torneio e mais uma vez amargou uma derrota. No torneio Sul Americano pela segunda vez sediado no Brasil,  os atletas negros voltaram à seleção, inclusive Arthur Friedenreich, que logo no primeiro jogo se machucou, e a nossa seleção brasileira sagrou-se bicampeã. Marcelo Carvalho, no entanto, alerta que: 

“A entrada dos negros no futebol se dá puramente pelas capacidades técnicas e possibilidades de vitória que esses jogadores proporcionavam. É muito pouco ligada ao não racismo, à virada de chave contra o racismo”

Nenhum comentário:

Postar um comentário