SINTONIA
CENTENÁRIA
Alfredo Gomes estava inserido na
contemporaneidade de um conturbado contexto, onde a diferença racial era
marcante para um atleta negro neto de escravizados. Enfrentou preconceitos que
afetaram todas as suas atividades e os seus relacionamentos, e precisou superar
adversidades e vencer desafios para atingir os seus objetivos.
A paixão de Alfredo Gomes pelo atletismo é incontestável, tanto que ele se dedicava aos treinos após um árduo dia de trabalho na Companhia Telefônica Brasileira (CTB), onde era inspetor de redes, e também participava ativamente do sindicato da categoria como um associado atuante. Alfredo sempre competiu amadoristicamente ainda que em corridas oficiais e internacionais.
O seu otimismo, objetivo, entusiasmo, e persistência em mudar o panorama adverso causado pelo preconceito racial muito arraigado à época, e ainda presente nos dias atuais, é sem sombra de dúvida, um impacto sócio cultural que deve e merece ser trazido à tona, em tempos de manifestações e reivindicações de reconhecimento pela luta das igualdades sociais e raciais em um país onde ironicamente, apesar de mais da metade da população se declarar afrodescendente, a raça negra faz parte da minoria neste complexo cenário.
No livro, DE PAULA AC Alfredo Gomes Vida, Vitórias, e Conquistas São Paulo, Ixtlan 2018 , a história deste herói foi contada em uma narrativa poética evidenciando sua vida pessoal e preservando a essência dos acontecimentos, refletindo o dia a dia de um homem negro de família humilde que superou crises existenciais, e traçou a sua trajetória vitoriosa para fugir do clichê característico de um ser humano conformista.
Nesta nova publicação, o autor procura atender a demanda da sociedade por expressões culturais que agreguem valores de representatividade inseridos no contexto do panorama atual, no entanto, os conflitos sócios raciais, que eventualmente emergirem dessas páginas não serão evidenciados de forma revanchista, deixando claro que é possível exigir, reivindicar, lutar e conquistar direitos sem demonstrações radicais da intolerância reinante, que o império da massa dominante batizou de preconceito racial reverso.
Quem nasceu pobre, negro, nordestino, obeso, com alguma necessidade especial, ou tem uma opção sexual fora dos conceitos padronizados reinantes, sabe muito bem em que ritmo a banda toca, lembrando ainda, que as garras afiadas da desigualdade racial atingem também as raias da diversidade, resvalando ainda pelo preconceito de gênero.
Resolvi escrever “Brasil - 100 anos de Negritude Olímpica” (A trajetória de Alfredo Gomes), para evidenciar e prestar meu tributo às suas conquistas, e também, para homenagear não apenas meu avô pelo seu pioneirismo olímpico, que completará cem anos nos próximos Jogos Olímpicos de Paris 2024, mas também, a todos os atletas homens e mulheres, que neste período centenário e em diversas modalidades esportivas, apesar dos constantes percalços e das pedras do caminho, encheram o peito de sonhos, esperança, alegrias e medalhas.

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