DE VOLTA A 1966
Voltando a 1966 devo confessar que foi para mim um
ano emblemático, o destino tem seus motivos e razões, e pelas mãos do meu amigo
Walter, sessenta dias depois da noite daquele memorável e inesquecível do festival
da Record, eu estaria frente a frente com um cara mais do que importante no
panorama das artes e que viria a protagonizar seis anos depois a importante
missão de representar todos os jurados no FIC Festival Internacional da Canção
em defesa de Nara Leão que havia sido afastada da presidência do corpo de
jurados por imposição do governo militar, pelo fato de haver criticado o
governo e a situação do país.
O
pesquisador Zuza Homem de Mello, em seu livro A Era dos Festivais, uma parábola
(2003, Editora 34, p.429), descreve claramente de que maneira os resultados dos
Festivais passaram a ser ditados pelos interesses ligados à ditadura militar e
enfoca o papel de Roberto Freire no último FIC (Festival Internacional da
Canção da TV Globo). “Ao tentar ler no palco do VII FIC um manifesto contra a
destituição do júri nacional, Roberto Freire foi violentamente arrastado por
policiais, que o levaram a uma sala e o espancaram barbaramente (…) Terminava a
Era dos Festivais”.
Na
noite do mês de Outubro de 1966 eu
estava vidrado na tela da tv preto e branco, o Teatro Record superlotado, era a
finalíssima do Festival da Música Popular Brasileira, Jair Rodrigues defendendo
brilhantemente a Disparada de Geraldo Vandré e Théo de Barros, empatava com a
Banda de Chico Buarque, defendida por Nara Leão. Naquela noite mentalizei meu desejo de ter uma musica gravada por aquele cantor carismático que empolgava e
sensibilizava a todos com seu vozeirão.
Grande Jair Rodrigues! Em 1987 gravei com ele Canto Livre, e Filha da filha da Chiquita Bacana, ambas em parceria
com Beto Scala.
O mais
interessante é que Filha da filha da
Chiquita Bacana é uma música que fizemos para a Maria Alcina, ela estava
escolhendo repertório e eu pensei : o Braguinha fez Chiquita Bacana, o Caetano
fez A filha da Chiquita Bacana, achei que seria oportuno aumentar a família e fazer
algo que fosse assim meio alegre, descontraído e um pouco escrachado para a Maria
Alcina e ao mesmo tempo criar mais uma personagem para a dinastia e escrevi:, “alô, alô,
estou com a corda toda/pegando fogo tô querendo dar/meu coração pra quem chegar
primeiro/venha ligeiro não deve esperar!”
Mas o Jair também estava
escolhendo repertório, o meu parceiro Beto Scala era guitarrista da banda de
apoio dele e lhe mostrou a música que
ele ouviu antes mesmo de mostrarmos a
Maria Alcina.
Ele ouviu, gostou, não
teve dúvida e disse – Eu gravo!
A musica foi bem
executada durante aquele ano de 87, no período do carnaval o Jair fez todos os
programas de TV inclusive o Programa do Chacrinha duas semanas seguidas, e durante
o mês de Março inteiro a musica tocava no fundo musical do Programa que a Xuxa
apresentava na TV Globo.
Vocês
já perceberam que tudo comigo aconteceu assim rapidinho rss, do autógrafo do Roberto Freire até o primeiro
festival foram 09 anos, e 21 anos até
conseguir gravar com o Jair Rodrigues.
Vinte anos após a FILHA DA FILHA
DA CHIQUITA BACANA ter sido gravada, em Fevereiro de 2007 a Revista Veja criou uma aula Interdisciplinar - Língua
Portuguesa e Cultura para a sessão VEJA NA SALA DE AULA Guia do Professor
O Brasil em marcha Mostre à garotada por que as músicas de Carnaval
foram a trilha sonora do país nos anos dourados
Uma aula de 50 minutos Marchinhas
de Carnaval e cultura brasileira. Perceber aspectos da cultura nacional
presentes nas marchinhas carnavalescas. Houve
um tempo em que marcha era apenas a do “soldado cabeça de papel”. No entanto,
entre as décadas de 1930 e 1960, as marchinhas de Carnaval passaram a iluminar
“recônditos da alma brasileira”. São
palavras de Roberto Pompeu de Toledo, em seu delicioso Ensaio de VEJA. Com
ironia, ele entrelaça análises literárias, políticas e culturais, esboçando o
retrato de um país risonho e franco, livre das patrulhas politicamente corretas
(expressão que, diga-se, nem existia). Mostre aos adolescentes o alcance de um
texto com essas características e revele por que as marchinhas se tornaram a
trilha sonora do Brasil dos anos dourados.
Braguinha e Sartre: o filósofo
ficaria surpreso se soubesse que sua doutrina foi citada numa marchinha do
compositor brasileiro.
Atividades ; Um bom início é verificar se os jovens conhecem todas as
canções citadas no artigo. Vale a pena pesquisar as letras das composições para
ampliar a compreensão das ideias de Pompeu de Toledo. Demonstre como ele parte
de uma análise pretensamente ingênua e literal das marchinhas para, em seguida,
fornecer - sempre com bom humor - informações políticas e culturais sobre o
Brasil e o mundo do passado. Um bom exemplo é o de Chiquita Bacana, qualificada
na composição como existencialista. É o suficiente para o ensaísta mencionar
pensadores como Heidegger e Jean-Paul Sartre, para quem a existência precede a
essência. Na passagem sobre a mulata, a filosofia dá lugar a divertidas
análises de linguagem, sobre o alcance da expressão “Eu tô aí nessa marmita”.
Peça que a moçada liste outros casos que se enquadram nesse entrelaçamento de
abordagens. Conte que Chiquita Bacana
foi a matriarca de uma ilustre dinastia - que inclui a filha, feminista de
carteirinha, e a neta, sempre “querendo dar seu coração pra quem chegar
primeiro”. A filha foi cantada por Caetano Veloso no álbum Caetano... Muitos
Carnavais, de 1977, enquanto a neta é a musa do frevo Filha da Filha de
Chiquita Bacana!, de Antônio Carlos de Paula e Beto Scala. Sugira uma
análise dessas obras nos moldes utilizados na revista. Por exemplo, Caetano
informa que a filha de Chiquita entrou “pra Women’s liberation front”. Seria
uma indicação de como o idioma inglês estava disseminado na sociedade
brasileira, a ponto de marcar presença em nossa música popular?(grifei) Para terminar, proponha um debate: o Brasil
das marchinhas mudou ou ficou com vergonha de mostrar a cara? O racismo
explícito desapareceu ou se enrustiu? Que aspectos da vida nacional são
celebrados e condenados atualmente? As discussões podem tornar mais explícitas
várias mudanças socioeconômicas e de comportamento ocorridas nas últimas
décadas. Os estudantes precisam perceber que o país otimista e ingênuo dos anos
1950, pano de fundo das marchinhas, desapareceu - vítima do próprio
desenvolvimento capitalista -, dando lugar a uma sociedade mais complexa e
dura. Hoje, os netos da mulata, “a que era a tal”, não usam a marcha
carnavalesca, e sim o rap, para denunciar a opressão que recai sobre os
afro-brasileiros. Mostre à garotada por que as músicas de
Carnaval foram a trilha sonora do país nos anos dourados. Aula criada pela equipe de VEJA NA SALA DE
AULA http://veja.abril.com.br/saladeaula/210207/p_08.html.
Posso dizer que a nossa música A FILHA DA FILHA DA CHIQUITA BACANA, cumpriu a sua missão de divulgar cultura e
conhecimento
Que Belo texto! Uma maravilhosa viagem no tempo e uma aula de arte, história, cidadania e cultura. Que orgulho conhecer alguém tão inteligente! Parabéns, Dr. Antonio Carlos de Paula.
ResponderExcluirgrato pela gentileza do comentário
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